Sua Excelência Kay Rala Xanana Gusmão
Primeiro-Ministro de Timor-Leste e Personalidade Eminente do g7+
O impacto das crises no Médio Oriente sobre os Estados afetados por conflitos
Excelências,
Senhor Diretor do Instituto para a Promoção da América Latina e Caraíbas,
Senhoras e Senhores,
Agradeço o convite para participar neste encontro tão importante e oportuno. Felicito o Instituto e o g7+ pela organização deste evento de grande relevância.
Reunimo-nos num momento particularmente delicado da vida internacional, marcado simultaneamente pela esperança e pela incerteza.
Os recentes esforços para alcançar a paz entre os Estados Unidos da América e o Irão constituíram uma oportunidade bem-vinda para travar uma escalada perigosa que ameaçava não apenas a região, mas também a paz mundial. Esperamos sinceramente que este acordo se mantenha e abra espaço ao diálogo, à contenção e a uma paz mais duradoura.
Contudo, mesmo acolhendo com satisfação este desenvolvimento, devemos reconhecer que as consequências da crise se estendem muito para além do Médio
Oriente.
Os choques económicos, os impactos humanitários e as tensões geopolíticas desencadeados pelo conflito já se fazem sentir noutras partes do mundo.
Em alguns dos países mais vulneráveis do planeta, as consequências destes conflitos irão perdurar muito para além do cessar das hostilidades.
É neste contexto que nos reunimos hoje.
Segundo o Índice Global da Paz de 2026, o mundo tornou-se menos pacífico durante doze anos consecutivos. Existem atualmente sessenta e um conflitos ativos em todo o mundo — o número mais elevado desde o final da Segunda Guerra Mundial.
O relatório refere ainda que este aumento é impulsionado, em grande medida, pelos chamados «conflitos internos internacionalizados» — guerras civis fortemente influenciadas por intervenções externas — cujo número aumentou mais de 175 por cento desde 2010.
Estes não são apenas números.
Esta devastação é sentida por pessoas!
E é dessas pessoas que hoje quero falar.
As pessoas que pagam sempre o preço mais elevado quando as grandes potências entram em guerra.
As pessoas cujas vozes em defesa da paz são frequentemente ignoradas.
As pessoas cujos países se transformam em campos de batalha de conflitos por procuração que não iniciaram nem desejaram.
Hoje, ao refletirmos sobre a crise no Médio Oriente, quero trazer para esta sala a perspetiva dessas pessoas.
Antes de discutirmos as consequências, devemos reconhecer o imenso sofrimento humano que esta crise provocou.
Expresso a minha mais profunda solidariedade para com todos os civis inocentes que perderam os seus entes queridos. Expresso igualmente solidariedade para com os países da região do Golfo, que se viram involuntariamente colocados no centro de tensões crescentes.
Durante décadas, o Golfo foi um pilar do comércio mundial, da segurança energética e das oportunidades económicas. Milhões de trabalhadores provenientes de países em desenvolvimento dependem desta região para garantir o seu sustento.
Quando a instabilidade atinge o Médio Oriente, não permanece confinada à região.
Propaga-se através de oceanos e continentes.
E chega às casas das famílias mais vulneráveis do mundo.
Excelências,
A primeira realidade que devemos reconhecer é a seguinte:
O antagonismo entre grandes potências raramente permanece limitado a essas potências.
As suas consequências são suportadas de forma desproporcionada pelos Estados vulneráveis e afetados por conflitos.
Com demasiada frequência, as rivalidades estratégicas são disputadas nos territórios de Estados mais frágeis, enquanto os seus povos suportam os custos humanos, sociais e económicos de conflitos que não escolheram.
Muitos dos chamados «conflitos internos internacionalizados» — responsáveis por milhões de vítimas ao longo das últimas décadas — foram alimentados por interesses externos, pela competição geopolítica e por disputas de influência.
As tragédias do Iémen — membro do g7+ —, do Afeganistão — também membro do g7+ —, do Sudão, do Líbano, do Haiti — igualmente membro do g7+ — e da Síria recordam-nos que os cidadãos comuns são frequentemente as vítimas de disputas mais amplas pelo poder.
E o povo palestiniano continua a suportar um sofrimento imenso, enraizado numa história longa e ainda por resolver.
As grandes potências tendem a olhar para estes conflitos através da lente da geopolítica e da vantagem estratégica.
Mas, nos nossos países, vemos algo muito diferente.
Vemos sofrimento humano.
Vemos o aumento dos preços dos alimentos.
Vemos rendimentos a diminuir.
Vemos famílias a lutar pela sobrevivência.
Para os países mais pobres, cada aumento do preço dos combustíveis, cada interrupção das rotas marítimas e cada subida da inflação podem anular anos de progresso.
Em Timor-Leste, a nossa economia continua a crescer de forma sustentada, mas continuamos fortemente dependentes das importações de bens essenciais.
Quando as rotas marítimas através do Mar Vermelho ou do Golfo são perturbadas, os custos aumentam imediatamente.
A mãe que compra alimentos em Díli paga mais.
O agricultor que adquire equipamentos paga mais.
O Governo que constrói escolas, hospitais e estradas paga mais.
O nosso povo é obrigado a suportar os custos de conflitos que não criou nem influenciou.
Esta é uma realidade partilhada por todo o g7+.
Para os Estados afetados por conflitos, uma subida do preço do petróleo não é um mero incómodo — é uma crise de desenvolvimento. Significa custos de transporte mais elevados, preços dos alimentos mais altos, maiores encargos com a dívida e um agravamento da pobreza.
A segunda consequência é igualmente preocupante:
O desvio da atenção e dos recursos globais.
Durante anos, a comunidade internacional comprometeu-se com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e assumiu o compromisso de não deixar nenhum país para trás.
Contudo, em vez de convergirmos em torno dos desafios globais comuns, estamos hoje a assistir a uma fragmentação das prioridades.
As alterações climáticas, as pandemias, a insegurança alimentar, a disrupção tecnológica e os conflitos persistentes exigem ação coletiva.
Mas as tensões geopolíticas e os conflitos armados estão a absorver cada vez mais atenção política, recursos financeiros e capacidade institucional.
À medida que a despesa militar aumenta em todo o mundo, o financiamento para o desenvolvimento diminui.
Recursos que deveriam estar a promover a paz, a reforçar instituições, a educar crianças e a criar oportunidades estão a ser canalizados para outros fins.
O mundo tornou-se extremamente eficiente a financiar a guerra, mas cada vez mais relutante em investir na paz e no desenvolvimento.
Esta tendência deve preocupar-nos a todos.
Excelências,
Senhoras e Senhores
Apesar destes desafios, países como Timor-Leste não estão parados.
Recusamo-nos a ser vítimas passivas dos acontecimentos globais. Pelo contrário, estamos a investir em parcerias, a reforçar a cooperação regional e a contribuir para um mundo mais pacífico e interligado.
No ano passado, Timor-Leste alcançou um marco histórico ao tornar-se o décimo primeiro membro da ASEAN. Esta conquista reflete a nossa firme convicção de que a cooperação regional constitui uma das mais fortes salvaguardas contra a instabilidade e um dos caminhos mais eficazes para a paz e a prosperidade.
Estamos igualmente a preparar-nos para assumir a Presidência da ASEAN em 2029.
Além disso, Timor-Leste é um orgulhoso membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), unida por valores partilhados e pela cooperação entre continentes.
Ao nível global, somos membros fundadores do g7+, uma coligação de países afetados por conflitos em África, Ásia, Pacífico, Médio Oriente e Caraíbas.
O g7+ nasceu de uma convicção simples: os países que viveram conflitos podem aprender uns com os outros e trabalhar em conjunto pela paz.
Para nós, a ASEAN, a CPLP e o g7+ não são meramente instituições.
São investimentos na paz e na prosperidade partilhada.
Demonstram que a paz NÃO se constrói através da dominação, mas sim através da cooperação.
Isto leva-nos a uma questão fundamental:
Que hipótese tem a paz num mundo cada vez mais marcado pela rivalidade e pela retaliação?
Se a cada conflito se responder com uma escalada, o resultado já é conhecido.
Como diz o provérbio, «olho por olho e o mundo acabará cego».
A experiência dos países do g7+ demonstra claramente que a paz exige reconciliação, coragem e visão de longo prazo.
Como alguém que testemunhou a longa luta de Timor-Leste pela liberdade, sei que a reconciliação não é fácil.
Após 24 anos de ocupação, o nosso povo poderia ter escolhido o ressentimento.
Em vez disso, escolhemos a reconciliação. Escolhemos a coexistência. Escolhemos construir um futuro em conjunto.
Excelências, caros amigos,
Vivemos um período de profunda fragmentação geopolítica.
As instituições multilaterais encontram-se cada vez mais condicionadas pela competição estratégica. A confiança está a deteriorar-se. A solidariedade global está a enfraquecer.
A História já nos mostrou o custo da confrontação.
Durante a Guerra Fria, a humanidade esteve perigosamente próxima da catástrofe, confrontando-se com a dura realidade da «Destruição Mútua Assegurada».
Sabemos que nenhuma nação — rica ou pobre, poderosa ou fraca — pode estar segura num mundo definido pelo antagonismo.
Os desafios globais atuais tornam esta realidade ainda mais urgente.
As alterações climáticas não respeitam fronteiras.
As pandemias não distinguem entre países.
A inteligência artificial levanta riscos que afetam toda a Humanidade.
Estes são desafios existenciais que exigem cooperação.
Contudo, em vez de unidade, estamos a assistir a uma intensificação da competição pela supremacia geopolítica.
Recursos e atenção estão a ser desviados dos problemas globais comuns para rivalidades que beneficiam poucos e colocam muitos em risco.
Este caminho não conduz à paz.
Conduz à instabilidade, à divisão e ao declínio coletivo.
Aquilo de que o mundo necessita urgentemente é de uma visão diferente.
Uma coligação para a paz.
Uma coligação para a cooperação.
Uma coligação para a solidariedade.
Uma coligação que reconheça que o nosso futuro comum não depende de quem prevalece sobre quem, mas sim da capacidade da Humanidade para trabalhar em conjunto na resposta às ameaças comuns.
Esta é a responsabilidade que temos para com as gerações futuras.
E é precisamente por isso que o g7+ é importante.
O g7+ assenta numa verdade simples: aqueles que viveram a guerra compreendem melhor do que ninguém o valor da paz.
Há mais de uma década que tem sido uma voz em defesa da prevenção, do diálogo e da resolução pacífica dos conflitos.
É uma plataforma de solidariedade entre nações marcadas pela fragilidade e pela recuperação.
NÃO competimos no seu seio. Aprendemos uns com os outros.
NÃO damos lições. Partilhamos experiências vividas.
Falamos NÃO como concorrentes, mas como parceiros na resiliência.
É este espírito de honestidade e solidariedade que confere ao g7+ a sua força moral.
Num mundo dividido, oferece uma mensagem diferente. Uma mensagem de parceria. Uma mensagem de esperança.
Distintas Senhoras e Senhores,
O mundo não pode permitir-se mais uma década de declínio da paz.
Não podemos permitir que a rivalidade geopolítica comprometa as esperanças de milhões de pessoas que aspiram à dignidade e à prosperidade.
Façamos um apelo à contenção.
Invistamos na paz com a mesma urgência com que outros investem na guerra.
E substituamos a arrogância do poder pela humildade da solidariedade.
Porque «ninguém está seguro enquanto todos não estiverem seguros».
A PAZ em qualquer parte do mundo depende da PAZ em todas as partes do mundo.
Muito obrigado.




